Há muitos mitos e inverdades sobre as vacinas que estão sendo produzidas para o combate da Covid-19. Para esclarecer as dúvidas, a Profa Dra Lúcia Abel Awad, imunologista com pós-doutorado em doenças infecciosas, respondeu algumas perguntas a respeito do tema.

O ministro da saúde afirmou que, em janeiro de 2021 vai começar a vacinar todo mundo. Mas, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, disse que a vacina não deve ser disponibilizada para toda a população. A vacina deve ou não ser para todos? Ou só para os grupos de risco?

R. Sim, a vacina deve estar disponível para todos. Porém, estamos diante de um enorme desafio, que é o de avaliarmos as vacinas em plena pandemia. Temos que compreender o tempo da CIÊNCIA, as vacinas nunca foram testadas com tanta rapidez!

Antes de qualquer situação, precisamos saber se as vacinas irão conferir proteção, ou seja, se serão capazes de induzir a produção de anticorpos neutralizantes contra o SARS- CoV-2. Para termos esta resposta, temos que aguardar os resultados dos estudos da fase III. É compreensível que a pressão seja enorme para termos uma vacina, mas ressalto a importância de termos os resultados dos estudos para, de fato, comprovarem seu efeito, segurança e toxicidade e, a partir daí, iniciarmos o processo de imunização em massa. Está previsto que as primeiras doses das vacinas sejam disponibilizadas entre dezembro e janeiro de 2021. O Ministério da Saúde assumiu inicialmente a compra de 30 milhões de doses da vacina de Oxford, enquanto aguardamos a finalização dos testes clínicos. Sendo assim, esta quantidade de doses estará disponível para 15 milhões de pessoas, visto que serão necessárias duas doses da vacina, com prioridade aos profissionais da saúde, pessoas de grupo de risco como idosos, indivíduos com diabetes, obesidade, hipertensão e outras doenças onde exista algum comprometimento do sistema imunológico. Uma vez comprovada a segurança e a eficácia da vacina de Oxford, estão previstas mais 70 milhões de doses. Enquanto aguardarmos as vacinas com os resultados da fase III, investimentos em fábricas, logística, distribuição, infraestrutura e qualificação de profissionais são fundamentais para o início do processo de imunização em massa.

No mundo há grupos contra a vacinação, inclusive com correntes, nos Estados Unidos, se manifestando contra as vacinas. No caso da Covid-19, qual a sua opinião?

R. Eu acredito que esses movimentos anti-vacinas estão perdendo força neste momento da pandemia, por se tratar de uma doença de curso rápido e alta letalidade para alguns pacientes. Uma pesquisa feita recentemente, mostrou que cerca de metade dos adultos nos EUA (51%) receberia a vacina, caso estivesse disponível, ao passo que 49% disseram que não tomariam ou provavelmente não receberiam. Comparativamente às pesquisas anteriores, o número de norte-americanos a favor da vacina vem aumentando, indicando uma maior aderência ao processo de imunização. Aqui no Brasil, graças ao acesso gratuito à uma ampla variedade de vacinas, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Programa Nacional de Imunizações (PNI), as pessoas acreditam nos benefícios das vacinas, visto que as campanhas de vacinação resultaram na erradicação de doenças importantes. O Japão está entre os países com maior desconfiança com relação às vacinas, de acordo com trabalho publicado na revista The Lancet no mês de setembro.

Hoje, a maior preocupação das pessoas está no fato de que os interesses políticos e das indústrias farmacêuticas estejam à frente das etapas que devem ser cumpridas com os testes vacinas, temendo uma aprovação precoce antes mesmo da finalização dos testes clínicos. Por outro lado, os movimentos anti-vacinas comprometem os esforços de imunizar a população visando acabar com a pandemia. Existem grupos alegando que as vacinas com RNA mensageiro, cujo propósito é promover a produção de resposta imune contra o Sars-Cov-2, podem alterar o DNA das nossas células, mas essas informações são falsas e não têm embasamento científico.

Recentemente o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a vacina não pode ser obrigatória. Na sua opinião, deve ser ou não?

R. Na minha opinião, o presidente não foi feliz nesta fala, já que criticou a obrigatoriedade da vacinação. Vale lembrar que ele mesmo sancionou uma lei que prevê a obrigatoriedade da vacina em fevereiro deste ano, na gestão do então ministro Luiz Henrique Mandetta. Não vejo isso como uma questão de opção, uma vez que, caso alguém se negue a tomar a vacina, poderá transmitir a doença para outra pessoa. É dever do nosso presidente e das autoridades públicas conscientizarem a população e mostrarem a importância do procedimento, visando não apenas a proteção individual, mas também a coletiva.

Com relação aos idosos, a vacina será 100% eficaz?

R. À medida que envelhecemos as condições de saúde associadas ao envelhecimento como aparecimento de doenças cardíacas, câncer, doenças metabólicas e autoimunes, podem surgir com maior frequência.  A senescência do sistema imunológico trabalha em condição menos efetiva e mais inflamatória em idosos, o que poderia prejudicar a resposta às vacinas contra a COVID-19.

Entretanto, se os outros grupos de pessoas mais jovens tomarem a vacina, estarão protegidas e protegerão os mais idosos. Os testes em andamento com a vacina de Oxford ampliaram a idade para maiores de 65 anos, com o objetivo de avaliar se a vacina será efetiva. As outras vacinas também contemplam a inclusão de grupos de pessoas idosas; a ideia é que proteja também essas pessoas, assim como outras vacinas hoje disponíveis.

Há alguma contraindicação com relação à vacina? Ou todos podem tomar?

R. As vacinas são contraindicadas para pessoas com imunodeficiências, ou que façam uso de corticoides continuamente, pacientes imunossuprimidos como, por exemplo, transplantados, ou que tenham doenças autoimunes.

Há algum efeito colateral? As vacinas contra o Influenza apresentam alguns. A vacina da Covid pode apresentar efeitos adversos mais severos?

R. As reações adversas mais comuns até agora evidenciadas nos testes vacinais foram dor e inflamação no local da aplicação da injeção. Os efeitos menos comuns e de curta duração: febre, fadiga, dor de cabeça e dor muscular. A maioria dos eventos adversos relatados foram de gravidade leve ou moderada. Processos alérgicos decorrentes de algum componente vacinal podem ocorrer, mas são raros. Outro risco que merece atenção, e foi observado recentemente em um voluntário com a vacina de Oxford, foi o desenvolvimento de uma resposta autoimune. Estes casos devem ser avaliados com muita atenção. Mas, um dos principais temores dos cientistas está na possibilidade de a vacina provocar uma doença mais aguda para quem tomá-la, caso seja infectado pelo SARS-Cov-2. Esse receio tem origem em estudos feitos com outros tipos de coronavírus, que mostraram que animais imunizados com vacinas contra outros tipos de coronavírus, nos testes pré-clínicos, tiveram uma doença pior em relação àqueles que não foram vacinados. Isso é um fenômeno que acontece quando não detectamos uma resposta imune com produção de anticorpos neutralizante do vírus. Todos os testes pré-clínicos realizados com as vacinas contra a COVID-19 em andamento, mostraram que essas vacinas promoveram a produção de anticorpos protetores.

Após tomar a vacina, quanto tempo a pessoa fica imunizada?

R. Estudos realizados com a vacina de Oxford, que utiliza o adenovírus  de macaco expressando a proteína da SARS-Cov-2 (proteína da espícula), os resultados mostram uma forte resposta de anticorpos neutralizantes após 28 dias da imunização, com resposta imune de linfócitos T específicas no  7o dia, com pico no14 o dia,  e mantidas até o 56 o dia, de acordo com os resultados publicados na revista Lancet. A vacina se mostrou imunogênica   e bem tolerada; estudos com pacientes idosos e crianças com maior número de voluntários expostos ao vírus estão sendo analisados neste momento. O uso de vacina com adenovírus de chipanzés garante não existir uma imunidade pré-existente em voluntários, o que torna a vacina de Oxford muito promissora.

A vacina terá que sofrer alterações por causa das mutações do vírus?

R. Um estudo recente publicado na revista PNAS, mostrou que o vírus da COVID-19 sofreu mutações mínimas desde dezembro de 2019, o que nos mostra que não teremos problemas na elaboração de vacinas contra a COVID-19. A presença de mutações em vírus é um fator limitante no desenvolvimento de vacinas como no caso do HIV, influenza e dengue

Há algumas vacinas que estão sendo produzidas. Oxford, Butantan, chinesa… Há alguma melhor, mais eficaz? Ou as informações são ainda muito prematuras?

R. O Brasil tem quatro vacinas contra a Covid-19 em fase III de testes clínicos em andamento. A vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford do Reino Unido, a vacina das farmacêuticas Pfizer (EUA) e Biontech (Alemanha), e a vacina Coronavac da empresa Chinesa SiNOVAC e a da empresa Johnson & Johnson.  A vacina de Oxford e a CoronaVac estão em fase mais adiantada, em fase III dos testes clínicos, e são as vacinas candidatas para registro. Os resultados da Vacina de Oxford apresentaram resultados muito promissores e foram publicados recentemente. A vacina CoronaVac foi testada com 50.000 voluntários na China e os resultados  mostraram que a vacina é segura e não apresentou efeitos colaterais importantes. As vacinas de Oxford e a Coronavac são as mais promissoras.

A Covid-19 ‘do futuro’ deverá ser sazonal como outros vírus respiratórios. Um artigo recente publicado no periódico Frontiers in Public Health, indica que, após a imunidade coletiva ser atingida, a Sars-CoV-2 poderá ser mais problemática em determinadas épocas do ano. Será?

R. Ao que tudo indica esse novo coronavírus também se tornará uma doença respiratória sazonal, como outros tipos de coronavírus, possivelmente trazendo mais problemas no inverno.  A COVID-19 veio para ficar e ela continuará a causar surtos ao longo do tempo até que a imunidade coletiva seja atingida. As pessoas precisarão aprender a viver com a doença e a continuar praticando as medidas de prevenção, principalmente o uso de máscaras, evitar aglomerações, manter o distanciamento social e a higiene das mãos. Apesar de sabermos muita coisa sobre esse novo coronavírus, ainda estamos aprendendo sobre a doença.

No caso dessa vacina, o objetivo inicial é proteger contra a doença, mas também protegerá contra a infecção?

R. Por isso há a importância de se testar a vacina em um grande número de pessoas; não sabemos se isso vai gerar uma resposta imunológica boa o suficiente para proteger contra a COVID-19.  Espera-se que a vacina seja capaz de induzir a produção de anticorpos neutralizantes impedindo a entrada do vírus nas células e, consequentemente, a disseminação da doença. A outra possibilidade é que o vírus consiga infectar a pessoa, mas graças à vacina, provoque uma manifestação menos grave da doença. O vírus continuará a circular na população porque não está sendo impedido de infectar, mas sua capacidade de causar os sintomas e as consequências mais graves da infecção será reduzida. O ideal é que a vacina proteja as pessoas do grupo de risco.

12) Os resultados dos estudos clínicos realizados na China com a vacina CORONAVAC (Instituto Butantan e Sinovac) em cerca de 50 mil voluntários mostraram que 94,7% não apresentaram efeitos adversos à vacina. Esta vacina poderá ser aplicada em breve aqui no Brasil?

R. Os resultados dos estudos clínicos com a vacina CORONAVAC na China  mostraram que a vacina apresentou eficiência em 98% e 99% nos voluntários testados. Entretanto, é importante salientar, que esses resultados demonstraram somente que a vacina foi capaz de induzir a produção de anticorpos. A eficiência da vacina somente será revelada após a análise dos testes da fase III, e quando for comprovado que a vacina é capaz de induzir proteção no grupo que tomou a vacina e foi exposto ao Sars Cov-2. A vacina terá que apresentar eficácia em pelo menos 50% para seguir o registro junto à ANVISA. Portanto, temos que aguardar os resultados dos testes da fase III para certificarmos que ela é segura e capaz de induzir a produção de anticorpos neutralizantes, ou seja, com a capacidade de promover uma imunidade duradoura e proteção contra o novo coronavírus.

Um dos desafios atuais dessas vacinas é que não sabemos quanto tempo essa imunidade irá durar, visto que alguns estudos sugerem ser de curta duração. Outro aspecto que precisa ser avaliado é se a vacina não será capaz de induzir uma doença ainda pior, caso o indivíduo seja infectado, como ocorre com a dengue. O ideal é que a eficácia das vacinas esteja acima de 80%, mas os órgãos regulatórios como ANVISA, FDA e OMS  estão aceitando eficácia de, no mínimo, 50% para aprovação e registro. (Com informações da Oficina de Mídia – 03.10.20)