Biomarcadores sanguíneos e Alzheimer: o que está mudando na investigação da doença

A doença de Alzheimer atravessa um momento importante do ponto de vista científico. O avanço no conhecimento sobre sua biologia e o desenvolvimento de biomarcadores sanguíneos estão ampliando as possibilidades de investigação das alterações associadas à doença. O tema ganhou ainda mais relevância com a publicação, em 2025, da primeira diretriz de prática clínica da Alzheimer’s Association dedicada ao uso de biomarcadores sanguíneos na investigação diagnóstica do Alzheimer em ambientes especializados.

O interesse nesses biomarcadores tem uma razão concreta. Proteínas presentes no sangue podem fornecer informações sobre processos biológicos relacionados à doença de Alzheimer. Entre os marcadores estudados estão formas fosforiladas da proteína tau, como p-Tau181 e p-Tau217, além de biomarcadores relacionados à beta-amiloide. Outros marcadores, como GFAP e NfL, também têm sido estudados no contexto da neurodegeneração, embora estejam associados a aspectos biológicos distintos.

Por que a p-Tau217 ganhou tanta atenção?

A p-Tau217 vem ocupando espaço relevante na literatura científica por sua associação com a patologia do Alzheimer. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no The Lancet Neurology em 2025 avaliou 113 estudos, envolvendo 29.625 indivíduos, para analisar o desempenho diagnóstico de biomarcadores plasmáticos de tau fosforilada.

Na análise, a p-Tau217 plasmática apresentou o melhor desempenho entre os biomarcadores p-tau avaliados para identificar a doença de Alzheimer biologicamente definida. A sensibilidade combinada foi de 88,1% e a especificidade de 88,7%, ambas classificadas pelos autores como evidência de certeza moderada.

Esses números ajudam a dimensionar o interesse científico, mas também mostram por que a discussão precisa ser cuidadosa. Um biomarcador não deve ser interpretado apenas pelo nome ou por um resultado isolado. O ensaio utilizado, seu desempenho analítico e clínico, a população avaliada e a finalidade do exame fazem diferença.
O sangue começa a ocupar um novo espaço na investigação do Alzheimer

A investigação de alterações biológicas relacionadas ao Alzheimer conta tradicionalmente com métodos como análise de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano e PET de amiloide. Os exames sanguíneos acrescentam uma alternativa menos invasiva e potencialmente mais acessível para avaliar aspectos da patologia da doença.

O avanço das evidências já começou a chegar às recomendações clínicas. Em julho de 2025, a Alzheimer’s Association publicou sua diretriz sobre biomarcadores sanguíneos no diagnóstico da doença de Alzheimer. É importante observar que as recomendações se referem especificamente a pacientes com comprometimento cognitivo avaliados em serviços especializados, e não ao uso indiscriminado dos exames na população geral.

A diretriz estabelece critérios objetivos de desempenho. Testes que apresentem pelo menos 90% de sensibilidade e 75% de especificidade podem ser utilizados para triagem nesse contexto. Em um resultado positivo, a recomendação prevê confirmação por outro método, como biomarcadores no líquido cefalorraquidiano ou PET de amiloide. Para um teste atuar como substituto desses métodos no contexto definido pela diretriz, são indicados pelo menos 90% de sensibilidade e 90% de especificidade.

Há outro ponto particularmente importante: nem todos os testes de biomarcadores sanguíneos apresentam o mesmo desempenho. A Alzheimer’s Association ressalta que existe variabilidade na precisão diagnóstica e que os testes disponíveis não devem ser considerados automaticamente intercambiáveis.

E o que essa evolução representa para o laboratório?

O avanço dos biomarcadores sanguíneos leva uma parte importante dessa discussão para dentro da medicina laboratorial. À medida que novas evidências são produzidas, questões sobre desempenho analítico, especificidade, sensibilidade, métodos utilizados e interpretação dos resultados passam a ter peso ainda maior.

Não se trata apenas de detectar uma proteína. É necessário compreender o que está sendo medido, por qual metodologia, com qual desempenho e para qual aplicação clínica.

Esse cuidado torna-se particularmente relevante em uma área na qual diferentes biomarcadores podem representar processos biológicos distintos e os resultados podem variar entre ensaios. A própria diretriz da Alzheimer’s Association reconhece limitações nas evidências disponíveis, incluindo heterogeneidade entre estudos, e foi estruturada como um documento sujeito a atualizações conforme novas evidências sejam publicadas.

Um campo que ainda está sendo construído

Os avanços são importantes, mas não eliminam as perguntas que ainda precisam ser respondidas. O desenvolvimento de biomarcadores sanguíneos para Alzheimer exige que evidência científica, desempenho dos ensaios e aplicação clínica sejam analisados em conjunto. À medida que os estudos avançam, também será necessário compreender melhor como diferentes testes se comportam entre populações e contextos clínicos.

Para a Beckman Coulter, empresa filiada à CBDL, atuar nesse campo significa acompanhar esse desenvolvimento com o rigor que a medicina laboratorial exige. A evolução do diagnóstico das doenças neurodegenerativas passa pela ciência, mas também pela capacidade de produzir resultados analíticos consistentes e interpretá-los dentro do contexto adequado.
Essa discussão está apenas começando. E, diante da velocidade com que novas evidências vêm sendo produzidas, compreender os biomarcadores e suas limitações será tão importante quanto acompanhar o surgimento de novas tecnologias.

(Com informações da Beckman Coulter – 29.10.2026)

Referências científicas
1. Therriault J, Brum WS, Trudel L, et al. Blood phosphorylated tau for the diagnosis of Alzheimer’s disease: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Neurology. 2025;24(9):740–752.
2. Palmqvist S, Whitson HE, Allen LA, et al. Alzheimer’s Association Clinical Practice Guideline on the use of blood-based biomarkers in the diagnostic workup of suspected Alzheimer’s disease within specialized care settings. Alzheimer’s & Dementia. 2025.
3. Alzheimer’s Association. Clinical Practice Guideline: Blood-Based Biomarkers in Specialty Care. 2025.

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