Como funcionam os medicamentos inteligentes que estão inovando o tratamento contra o câncer de mama?

Oncologista do Sírio-Libanês comenta a ação dos conjugados anticorpo-fármaco (ADCs) que agem nas células do tumor, e tecnologia que pode detectar riscos de recidiva do câncer

O tratamento do câncer de mama vem incorporando novos recursos à prática médica e trazendo perspectivas promissoras para pacientes. Entre eles estão os conjugados anticorpo-fármaco (ADCs), que levam medicamentos de forma direcionada às células tumorais, e a análise do DNA tumoral circulante (ctDNA), capaz de identificar no sangue sinais que podem indicar a presença de doença residual. As duas estratégias refletem os avanços da oncologia no conhecimento das características do câncer e na ampliação das possibilidades de tratamento e acompanhamento.

Nos últimos seis meses, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ampliou, em duas ocasiões, a indicação do trastuzumabe deruxtecana para pacientes com câncer de mama no Brasil: em maio, a agência aprovou seu uso combinado ao pertuzumabe como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer HER2-positivo irressecável ou metastático. Em julho, autorizou seu uso como tratamento adjuvante para pacientes com doença invasiva residual após tratamento neoadjuvante, cenário avaliado no estudo DESTINY-Breast05². O medicamento é um exemplo dos chamados anticorpo droga conjugados (ADCs). Eles funcionam como uma espécie de “entrega direcionada”: o anticorpo reconhece uma proteína presente nas células do tumor e leva até elas uma substância capaz de destruí-las.

Em um dos estudos que embasaram a decisão da Anvisa, publicado no New England Journal of Medicine, pacientes com câncer de mama HER2-positivo avançado ou metastático que receberam trastuzumabe deruxtecana combinado ao pertuzumabe permaneceram, em média, 40,7 meses sem progressão da doença, contra 26,9 meses entre aquelas que receberam o tratamento padrão. O resultado representou uma redução de 44% no risco de progressão da doença ou morte¹. Para especialistas, resultados como esse ajudam a traduzir em benefício clínico o avanço da pesquisa científica e renovam as perspectivas para pacientes que enfrentam a doença.

Para a oncologista clínica do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, Fernanda Moura, a identificação das características do câncer é fundamental para definir a estratégia de tratamento. “Quando temos o diagnóstico de câncer de mama, precisamos entender qual é o subtipo. Pela imuno-histoquímica, definimos se o câncer é hormonal, HER2 ou triplo negativo. Além do subtipo, temos também o estadiamento. Precisamos entender se o tumor está localizado na mama, se já passou para a axila ou se já está avançado, em outros órgãos. Só a partir dessas informações é que o oncologista consegue indicar qual é o tratamento adequado”, explica.

Segundo a médica, os ADCs fazem parte de um arsenal que vem se expandindo. “Os ADCs têm tido bastante êxito, pois funcionam como ‘mísseis biológicos’, levando a quimioterapia diretamente para dentro da célula cancerígena e seus arredores”, afirma.

Exame de sangue pode antecipar sinais de recidiva

A busca por maior precisão também abre novas possibilidades para acompanhar o câncer de mama após o tratamento. Uma delas é a análise do DNA tumoral circulante (ctDNA), que procura no sangue pequenos fragmentos de material genético liberados pelas células do tumor. A presença desse material pode indicar doença residual molecular, mesmo quando os exames convencionais não mostram sinais da doença.

Estudos recentes apresentam resultados promissores. No estudo ALIENOR, publicado em 2026 na revista científica ESMO Open, o ctDNA foi detectado em 25 das 27 pacientes com câncer de mama inicial de alto risco que posteriormente apresentaram recidiva. O sinal molecular foi identificado com antecedência mediana de 13,9 meses em relação à confirmação clínica da doença³.

O resultado aponta para o potencial da tecnologia como uma nova ferramenta de acompanhamento, capaz de ajudar a identificar mais cedo pacientes com maior risco de recidiva. Se esses achados forem confirmados em estudos futuros, o ctDNA poderá contribuir para estratégias de acompanhamento mais precoces e precisas.

A tecnologia, porém, ainda está em investigação e não faz parte da rotina clínica para orientar mudanças no tratamento. “O ALIENOR fortalece a biópsia líquida como ferramenta de estratificação prognóstica após neoadjuvância, especialmente em pacientes com doença residual. Entretanto, não justifica incorporar rotineiramente o monitoramento seriado de ctDNA ao seguimento do câncer de mama inicial fora de protocolos de pesquisa. A pergunta que permanece é se a antecipação molecular da recidiva pode ser transformada em benefício clínico real por meio de intervenções precoces”, ressalta Fernanda Moura.

Os dois caminhos mostram como a pesquisa científica vem inovando no cuidado do câncer de mama: de um lado, medicamentos capazes de direcionar a ação terapêutica para as células do tumor; de outro, uma ferramenta promissora que pode permitir identificar sinais da doença em nível molecular antes de sua manifestação clínica. São avanços que ampliam as possibilidades de cuidado e apontam para um futuro em que o tratamento e o acompanhamento poderão ser cada vez mais precisos. (Com informações do Hospital Sírio-Libanês – 29.10.2026)

Referências:

1) Tolaney SM, et al. Trastuzumab Deruxtecan plus Pertuzumab for HER2-Positive Metastatic Breast Cancer. N Engl J Med. 2026;394:551–562. doi: 10.1056/NEJMoa2508668. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41160818/

2) Loibl S, Park YH, Shao Z, et al.; DESTINY-Breast05 Trial Investigators. Trastuzumab Deruxtecan in Residual HER2-Positive Early Breast Cancer. N Engl J Med. 2026;394(9):845–857. doi: 10.1056/NEJMoa2514661. PMID: 41370739. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41370739

3) Blaye C, Bidard FC, Hue L, et al. Tracking structural variants in early breast cancer using a high-sensitivity ctDNA assay predicts relapse in the post-neoadjuvant setting: the multicenter ALIENOR trial. ESMO Open. 2026;11(6):107766. doi: 10.1016/j.esmoop.2026.107766. PMID: 42242004. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13266007/

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