Vacina personalizada contra melanoma reduz risco de câncer voltar, mostra estudo de fase 3; oncologista explica

Tratamento desenvolvido por Moderna e Merck, em combinação com imunoterapia, reduziu significativamente o risco de retorno da doença e de disseminação do tumor; estratégia usa características genéticas do tumor de cada paciente para estimular uma resposta imune mais específica

Uma vacina terapêutica personalizada baseada em RNA mensageiro (mRNA) apresentou resultados positivos em um estudo de fase 3 para pacientes com melanoma de maior risco. Desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e Merck, a estratégia foi avaliada em combinação com o pembrolizumabe (Keytruda), imunoterapia já utilizada no tratamento da doença.

O estudo, que envolveu mais de 1.100 pacientes com melanoma de alto risco ou avançado que tiveram o tumor completamente removido por cirurgia, atingiu seu principal objetivo: a combinação da vacina com pembrolizumabe prolongou significativamente o período em que os pacientes permaneceram livres da doença em comparação com o uso isolado da imunoterapia. Os resultados também apontaram redução do risco de o câncer se disseminar para outras partes do organismo.

Para o oncologista Rodrigo Perez Pereira, líder nacional da especialidade pele da Oncoclínicas, o resultado chama atenção principalmente pelo avanço de uma estratégia que busca adaptar o tratamento às características moleculares de cada tumor.

“O que torna essa estratégia particularmente interessante é a possibilidade de personalizar a resposta do sistema imunológico. Cada tumor apresenta um conjunto próprio de alterações genéticas, de mutações, e a proposta dessa vacina é utilizar essas informações para estimular uma resposta imune direcionada contra as células tumorais. É um conceito que representa um avanço importante dentro da medicina de precisão”, afirma.

Como funciona a vacina personalizada contra o câncer

Apesar de ser chamada de vacina, a tecnologia tem uma finalidade diferente das vacinas tradicionais, desenvolvidas para prevenir infecções. Nesse caso, trata-se de uma vacina terapêutica, administrada a pessoas que já tiveram um diagnóstico de câncer.

A partir da análise do tumor retirado durante a cirurgia, são identificadas mutações específicas presentes nas células tumorais. Com base nessas informações, é desenvolvida uma formulação individualizada de mRNA (RNA mensageiro), que contém instruções para que o organismo produza determinados alvos associados ao tumor, os antígenos tumorais. A vacina é fundamentalmente produzida a partir de uma amostra de tumor do paciente para identificar a assinatura mutacional única — ou a “impressão digital” — do seu câncer, buscando gerar uma resposta imune antitumoral direcionada.

O objetivo é ensinar o sistema imunológico a reconhecer essas características e aumentar sua capacidade de identificar e eliminar células cancerígenas que possam ter permanecido no organismo.

“Não estamos falando de uma vacina que previne o melanoma antes que ele apareça. É uma abordagem terapêutica desenvolvida depois do diagnóstico e da retirada completa do tumor, com o objetivo de preparar o sistema imunológico para reconhecer características específicas daquele câncer”, explica Rodrigo.

A vacina é administrada em associação ao pembrolizumabe, um medicamento que pertence à classe dos inibidores de checkpoint imunológico. De maneira simplificada, enquanto a vacina busca aumentar e direcionar o reconhecimento das células tumorais pelo sistema imune, a imunoterapia ajuda a liberar os freios que podem impedir essa resposta.

“A combinação faz sentido do ponto de vista biológico porque são mecanismos potencialmente complementares. A vacina busca ampliar uma resposta imunológica específica contra o tumor, enquanto a imunoterapia atua sobre os mecanismos de escape utilizados pelas células cancerígenas. O resultado observado no estudo sugere que essa combinação pode ser mais eficaz do que a imunoterapia isoladamente”, afirma o especialista.

O que os resultados mostram

O estudo de fase 3 avaliou pacientes com melanoma de maior risco que passaram por cirurgia para retirada completa do tumor. Nesse cenário, mesmo quando não há evidência de câncer nos exames após a cirurgia, existe o risco de que células tumorais tenham permanecido no organismo e provoquem uma nova manifestação da doença no futuro, as chamadas metástases.

Por isso, um dos principais objetivos do tratamento após a cirurgia é reduzir o risco de recorrência. Os resultados divulgados pelas empresas indicam que a combinação da vacina personalizada com pembrolizumabe proporcionou uma melhora significativa na sobrevida livre de recorrência em comparação com o pembrolizumabe isolado. Também houve redução do risco de recorrência com disseminação do câncer para órgãos distantes.

Os dados completos ainda serão apresentados em um congresso médico internacional neste ano. O estudo continuará acompanhando os pacientes para avaliar outros desfechos, entre eles a sobrevida global, que indica se o tratamento é capaz de aumentar o tempo de sobrevida dos pacientes.

“É importante separar o que já sabemos do que ainda precisa ser demonstrado. Os dados apresentados são bastante relevantes e mostram um benefício na redução das recorrências, mas ainda precisamos acompanhar os pacientes por mais tempo para entender o impacto da estratégia na sobrevida global. É esse acompanhamento que vai ajudar a definir o real papel dessa tecnologia na prática clínica”, pondera Rodrigo.

Por que o melanoma é um alvo importante

O melanoma é um tipo de câncer de pele que se origina nos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina. Embora represente uma parcela relativamente pequena dos tumores de pele, é responsável pela maioria das mortes relacionadas a esse grupo de cânceres.

A doença pode ser curada quando identificada e tratada em estágios iniciais. O cenário muda quando o tumor apresenta características de maior risco ou quando ocorre disseminação para outros órgãos.

Nas últimas décadas, a imunoterapia transformou o tratamento do melanoma avançado e passou também a ocupar espaço no tratamento de pacientes com doença localizada de maior risco. A possibilidade de combinar essas terapias com uma vacina personalizada abre uma nova frente de investigação.

“Um dos grandes avanços no tratamento do melanoma foi justamente conseguir utilizar o próprio sistema imunológico para combater o câncer. A vacina personalizada representa uma evolução desse conceito, porque acrescenta um grau maior de especificidade à resposta imunológica. Ainda precisamos dos dados de acompanhamento para saber o tamanho real desse benefício, mas o resultado é certamente muito relevante para o campo”, diz o oncologista.

Uma tecnologia que pode ir além do melanoma

A estratégia de vacina personalizada baseada em mRNA não está sendo estudada apenas no melanoma. Moderna e Merck também investigam a abordagem em outros tipos de câncer, incluindo câncer de pulmão de não pequenas células, câncer de bexiga e carcinoma renal.

A lógica por trás desses estudos é semelhante: identificar características específicas do tumor de cada paciente e utilizá-las para desenvolver uma resposta imunológica personalizada.

Para o oncologista, essa possibilidade é uma das partes mais importantes do avanço. “Talvez o maior significado desses resultados esteja justamente no conceito. Se conseguirmos demonstrar que é possível personalizar uma vacina de forma eficiente, segura e clinicamente relevante, podemos abrir caminho para uma nova geração de tratamentos contra o câncer. Mas cada tipo de tumor tem suas próprias características, então não podemos assumir que os resultados observados no melanoma necessariamente serão reproduzidos em outras doenças”, ressalta.

Apesar do resultado positivo, a vacina ainda é experimental e não está disponível como tratamento aprovado para pacientes com melanoma no Brasil. As empresas deverão discutir os dados com as autoridades regulatórias antes de eventuais pedidos de aprovação.

“O resultado de um estudo de fase 3 é um passo muito importante, mas ainda existe um caminho regulatório e científico a ser percorrido, além de considerarmos questões como a tecnologia envolvida na produção da vacina e os seus custos. Precisamos conhecer os dados completos, o tempo de acompanhamento e o perfil de segurança para avaliar com precisã.o onde essa estratégia se encaixa no tratamento do melanoma”, conclui Rodrigo. (Com informações da Oncoclínicas&Co – 25.08.2026)

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