Genotipagem estendida do HPV pode permitir uma estratificação mais precisa do risco e ajudar a reduzir encaminhamentos desnecessários para colposcopia
A experiência da Dinamarca com o rastreamento do câncer do colo do útero está trazendo novas reflexões sobre como o Brasil poderá aprimorar, nos próxim.os anos, a estratégia baseada na detecção do DNA do HPV. Estudos realizados no país europeu mostram que a identificação mais precisa dos tipos de HPV pode contribuir não apenas para detectar precocemente as mulheres sob maior risco, mas também para evitar investigações desnecessárias em casos de menor probabilidade de evolução para lesões graves.
Um estudo dinamarquês com mais de 36 mil mulheres avaliou a conduta diante da detecção de tipos de HPV de alto risco diferentes dos genótipos 16 e 18. Nos casos em que não havia alterações citológicas relevantes, as mulheres foram acompanhadas com nova avaliação após 12 meses. Na repetição, 43% já não apresentavam mais a infecção pelo HPV. Não foram observadas lesões de alto grau nesses casos durante o acompanhamento. “Os resultados levantam a possibilidade de que parte dessas mulheres pudesse ser acompanhada sem a necessidade de encaminhamento imediato para colposcopia”, afirma Marcelo Soares, biólogo e pesquisador titular do INCA.
As Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, publicadas pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) no ano passado, recomendam o teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico como método primário de rastreamento, substituindo gradualmente a citologia. A estratégia já foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e incorporada ao SUS.
“O teste molecular representa um avanço importante porque permite identificar a presença do HPV antes do aparecimento das alterações celulares. Mas, ao mesmo tempo em que aumentamos a capacidade de detectar precocemente as infecções, precisamos desenvolver mecanismos para diferenciar aquelas que representam maior risco daquelas que provavelmente serão eliminadas pelo próprio organismo”, ressalta o pesquisador do INCA.
Atualmente, as diretrizes brasileiras preconizam a identificação individual dos tipos 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer do colo do útero no mundo. Os demais tipos de HPV oncogênico são analisados em conjunto. “A chamada genotipagem estendida permite identificar individualmente outros genótipos de alto risco e, com isso, estabelecer uma classificação mais detalhada do risco de desenvolvimento de lesões”, completa o biólogo.
Para Marcelo Soares, essa informação poderá ter impacto direto na organização do sistema de saúde. “Quanto mais sensível é o rastreamento, mais importante se torna a capacidade de estratificar o risco. Não se trata de fazer menos prevenção, mas de fazer uma prevenção mais precisa, encaminhando rapidamente quem apresenta maior risco e evitando procedimentos desnecessários para quem tem uma infecção com grande probabilidade de desaparecer espontaneamente.”
Outro estudo recente, também realizado na Dinamarca, acompanhou mais de 178 mil mulheres e reforçou o desafio trazido pela maior sensibilidade do teste molecular. O rastreamento baseado em HPV identificou mais lesões precursoras do que a citologia, mas também aumentou o número de resultados positivos. “Estratégias de triagem que incorporam a genotipagem estendida mostraram potencial para reduzir o excesso de encaminhamentos para colposcopia”, analisa o pesquisador do INCA.
A questão é particularmente relevante para o sistema público brasileiro. A colposcopia é um procedimento especializado, que depende de profissionais capacitados e de estrutura disponível em número limitado de serviços. “Uma melhor estratificação do risco poderia contribuir para reduzir a sobrecarga desses centros, permitindo que os recursos sejam direcionados prioritariamente às mulheres com maior probabilidade de apresentar lesões que necessitam de investigação e tratamento”, ressalta.
A discussão sobre os avanços no rastreamento e o potencial da genotipagem estendida será tema da palestra “Programa de Rastreio de Câncer de Colo de Útero por DNA-HPV no Brasil: Estamos prontos para a Genotipagem Estendida?”, apresentada por Marcelo Soares durante o Simpósio Satélite promovido pela Seegene Brazil, no XXVIII Congresso Brasileiro de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia, que acontece de 10 a 12 de setembro, em Aracaju (SE). O evento reunirá especialistas para discutir os avanços na prevenção, no diagnóstico e no tratamento das doenças relacionadas ao HPV. (Com informações do INCA – (Com informações do INCA – 09.09.2026)

