Biópsia líquida: o exame de sangue que pode transformar a investigação do câncer

Tecnologia permite analisar sinais moleculares do tumor a partir de uma amostra de sangue, mas ainda enfrenta desafios para ampliar seu uso na detecção precoce da doença

Uma amostra de sangue pode, em alguns contextos, fornecer informações sobre um tumor sem a necessidade de retirar tecido diretamente da lesão. É essa a proposta da biópsia líquida, técnica que analisa materiais liberados pelo câncer na circulação sanguínea, como fragmentos de DNA tumoral circulante (ctDNA). A tecnologia vem ganhando espaço na oncologia por permitir uma investigação molecular menos invasiva e, em determinadas situações, acompanhar características do tumor ao longo do tratamento.

A biópsia líquida, porém, não é uma tecnologia única nem tem hoje uma aplicação universal para todos os tipos e estágios de câncer. Na prática, a tecnologia vem sendo utilizada ou estudada em diferentes situações, que apresentam níveis distintos de evidência científica. Entre elas estão a caracterização molecular de tumores já diagnosticados, a investigação de doença residual molecular após o tratamento e, em uma frente ainda investigacional, a busca por sinais de câncer antes do diagnóstico convencional ou do aparecimento de sintomas. Uma revisão publicada em 2025 na Nature Reviews Clinical Oncology, intitulada Promises and pitfalls of multi-cancer early detection using liquid biopsy tests, destaca justamente que o potencial da biópsia líquida para a detecção precoce de múltiplos tumores ainda depende de evidências adicionais para demonstrar benefício clínico em larga escala.

“É uma tecnologia que permite acessar informações do tumor por meio de uma coleta muito mais simples do que uma biópsia de tecido tradicional. O grande avanço está na possibilidade de identificar e acompanhar alterações moleculares que ajudam a entender melhor a doença, mas é importante diferenciar o que já tem aplicação clínica consolidada daquilo que ainda está em fase de pesquisa”, explica o Dr. Raphael Parmeggiani, vice-presidente de Assuntos Científicos em Oncologia da América Latina da Centogene.

Onde a biópsia líquida já é utilizada

Embora a ideia de identificar câncer por meio de uma amostra de sangue desperte interesse principalmente pela possibilidade de diagnóstico precoce, algumas aplicações da biópsia líquida já estão mais estabelecidas. Em pacientes que já têm câncer, especialmente em alguns casos de doença avançada ou metastática, a análise de DNA tumoral circulante pode auxiliar na caracterização molecular do tumor e na identificação de alterações relevantes para a escolha de determinadas terapias. Isso é extremamente relevante nos contextos em que não há mais material de tecido disponível, ou ainda quando o material disponível é antigo, e o médico necessita uma informação atual sobre as alterações moleculares do tumor.

“Poder fazer uma coleta de sangue ao invés de uma nova biópsia tecidual, muito mais invasiva e que pode até trazer complicações clínicas, é uma vantagem enorme desse tipo de exame”, pontua Parmeggiani.

A própria regulamentação internacional já contempla algumas dessas aplicações. Nos Estados Unidos, a FDA possui testes de biópsia líquida autorizados para identificar alterações genéticas em tumores e auxiliar na seleção de tratamentos. Em 2023, por exemplo, a agência ampliou as indicações do FoundationOne Liquid CDx para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células e determinadas alterações no gene EGFR, além de outras indicações oncológicas.

É nesse contexto de aplicação clínica que a biópsia líquida passa a integrar o portfólio da Centogene. Lançado neste mês, o teste utiliza uma amostra de sangue para analisar DNA tumoral circulante (ctDNA) presente no plasma e identificar alterações moleculares relacionadas ao tumor. A proposta é obter informações sobre as características moleculares da doença sem a necessidade de uma nova coleta de tecido, especialmente em situações nas quais não há material tumoral disponível ou quando é necessária uma avaliação mais atual do perfil molecular do câncer.

Outra aplicação que vem avançando é a investigação da doença residual molecular (MRD, na sigla em inglês). Nesse caso, o paciente já passou por um tratamento com intenção curativa, como uma cirurgia, e a análise busca identificar pequenas quantidades de DNA tumoral que possam permanecer no organismo mesmo quando os exames de imagem não mostram sinais da doença. A presença de ctDNA pode indicar a existência de doença residual molecular e, em contextos específicos, fornecer uma informação adicional para decisões sobre tratamento complementar.

Em maio de 2026, a FDA aprovou o Signatera CDx como diagnóstico complementar para identificar doença residual molecular em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo após cistectomia e selecionar aqueles com ctDNA detectável que podem se beneficiar de tratamento adjuvante com atezolizumabe. O caso é um exemplo de como a análise de ctDNA já pode ter papel clínico definido em contextos específicos, sem significar que a estratégia possa ser aplicada da mesma maneira a todos os tipos de câncer.

“Hoje, a maior parte da aplicação clínica está relacionada a pacientes que já têm um diagnóstico de câncer, especialmente quando queremos caracterizar molecularmente a doença, acompanhar sua evolução ou identificar alterações que possam ter impacto na escolha do tratamento. A utilização para descobrir um câncer antes mesmo de ele apresentar sinais clínicos é uma etapa mais complexa e ainda precisa de evidências”, afirma Parmeggiani.

Detecção precoce ainda é uma frente de pesquisa

A possibilidade de utilizar a biópsia líquida para procurar sinais de câncer antes mesmo de um diagnóstico convencional é uma das aplicações que mais despertam interesse, mas também uma das que ainda apresentam maiores desafios científicos. Um dos principais obstáculos está justamente na quantidade de material tumoral que chega à corrente sanguínea. Em tumores pequenos ou em estágios muito iniciais, a quantidade de ctDNA pode ser extremamente baixa, dificultando sua identificação. O National Cancer Institute destacou, em 2024, que essa baixa concentração é uma das razões pelas quais as biópsias líquidas ainda podem não detectar determinados cânceres de forma confiável.

Além da sensibilidade, também existem desafios relacionados à especificidade, à interpretação dos resultados e à necessidade de comprovar que detectar um sinal molecular mais cedo realmente melhora os desfechos dos pacientes. Um editorial publicado em 2024 na Nature Medicine, Turning the tide of early cancer detection, ressaltou que as tecnologias de nova geração apresentam potencial para ampliar a detecção precoce, mas ainda precisam passar por avaliações clínicas adicionais antes de serem incorporadas amplamente ao rastreamento populacional.

Essa cautela também é destacada pelo National Cancer Institute. Atualmente, nenhum teste de detecção multicâncer foi autorizado pela FDA, e nenhuma sociedade médica profissional ou a U.S. Preventive Services Task Force emitiu recomendações para seu uso como rastreamento de câncer. O NCI ressalta ainda que os testes disponíveis precisam ser avaliados em estudos clínicos randomizados para determinar se a identificação antecipada de sinais tumorais produz benefícios que superem os possíveis riscos.

“São três situações diferentes e que não devem ser colocadas no mesmo nível de evidência. Hoje, já temos aplicações da biópsia líquida utilizadas para caracterizar tumores e apoiar decisões terapêuticas em pacientes com câncer. A avaliação de doença residual molecular também está avançando em contextos específicos. Já a detecção precoce em pessoas sem diagnóstico é uma fronteira de pesquisa que ainda precisa demonstrar seu benefício clínico. O desafio é entender onde essa tecnologia realmente muda a conduta e melhora o cuidado do paciente”, explica Parmeggiani.

A expectativa é que o avanço das técnicas de sequenciamento, da análise computacional e da integração de diferentes marcadores biológicos aumente a capacidade de identificar sinais tumorais presentes em pequenas quantidades. Revisões recentes apontam que novas abordagens, incluindo a análise de diferentes características do DNA circulante e a combinação de múltiplos biomarcadores, estão sendo investigadas para superar parte das limitações atuais.

“Estamos caminhando para uma oncologia cada vez mais orientada por dados. O desafio não é apenas desenvolver exames capazes de encontrar sinais do câncer, mas demonstrar quando essa informação muda uma conduta, melhora o acompanhamento ou aumenta a possibilidade de tratar a doença em uma fase mais favorável. É essa comprovação que vai determinar até onde a biópsia líquida poderá chegar na prática clínica”, conclui Parmeggiani. (Com informações da Centogene – 19.10.2026)

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