Busca por diagnóstico pode durar anos e envolve obstáculos como sintomas pouco específicos, dificuldade de acesso a especialistas e necessidade de ampliar o uso e a interpretação de dados genéticos
Para quem vive com uma doença rara, chegar ao diagnóstico pode ser apenas o começo de uma longa jornada, mas, em muitos casos, é também um dos momentos mais difíceis. Sintomas que se confundem com condições mais frequentes, manifestações clínicas que variam entre pacientes e a necessidade de consultar diferentes especialistas podem prolongar a busca por respostas. No Brasil, um estudo publicado em 2024 pela Rede Brasileira de Doenças Raras identificou uma duração média de 5,4 anos para a chamada “odisseia diagnóstica” entre os participantes avaliados.
O levantamento, publicado no Orphanet Journal of Rare Diseases, reuniu dados de uma rede nacional de serviços especializados e incluiu pessoas de 1.750 municípios brasileiros. O estudo também mostrou que uma parcela dos participantes permanecia sem diagnóstico, evidenciando a complexidade de identificar condições que, individualmente, são pouco frequentes, mas que, em conjunto, afetam milhões de pessoas.
Para Marcia Riboldi, CEO da Centogene Brasil e América Latina, reduzir este intervalo depende de uma abordagem capaz de conectar diferentes informações clínicas e genéticas. “O diagnóstico de uma doença rara exige uma investigação que considere o conjunto de características apresentadas pelo paciente. Muitas vezes, não é um único exame que traz a resposta, mas a capacidade de integrar dados clínicos e genômicos, interpretar os resultados adequadamente e relacioná-los ao conhecimento científico disponível”, afirma.
Quando a resposta pode estar no DNA
Segundo o Ministério da Saúde, existem mais de 5 mil doenças raras conhecidas, e a maioria apresenta algum componente genético. A pasta também reconhece que a diversidade dessas condições e a semelhança de seus sinais e sintomas com doenças mais comuns podem dificultar o diagnóstico e representar um desafio para o sistema de saúde.
A dimensão desse desafio também aparece na estrutura de atendimento disponível no país. De acordo com dados atualizados pelo Ministério da Saúde, a rede especializada em doenças raras conta atualmente com 58 serviços habilitados, distribuídos em 15 unidades da Federação. A concentração de serviços especializados em determinadas regiões pode representar um obstáculo adicional para pacientes que precisam de avaliação genética e acompanhamento multidisciplinar.
Nesse cenário, o avanço das tecnologias genômicas abre novas possibilidades para investigar casos que permanecem sem explicação. Uma revisão publicada em 2024 na Nature Reviews Genetics aponta que tecnologias como o sequenciamento direcionado, de exoma e de genoma transformaram o diagnóstico de doenças genéticas raras, mas ressalta que mais da metade dos pacientes ainda permanece sem uma resposta diagnóstica. O trabalho também destaca o desenvolvimento de novas estratégias, como o sequenciamento de leitura longa e o mapeamento óptico do genoma, que podem ajudar a identificar variantes que não são facilmente detectadas por abordagens convencionais.
“Nos últimos anos, ampliamos muito nossa capacidade de gerar dados genéticos. O desafio agora é transformar essa informação em conhecimento clínico útil. Isso envolve qualidade técnica, interpretação especializada e atualização constante das bases de dados que permitem relacionar variantes genéticas a doenças”, explica Marcia.
No Brasil, essa necessidade é particularmente relevante diante da diversidade genética da população. A ampliação da produção de dados genômicos de pacientes brasileiros pode contribuir não apenas para o diagnóstico individual, mas também para o conhecimento sobre variantes genéticas observadas em populações historicamente sub-representadas nos bancos de dados internacionais.
Nesse contexto, a qualidade e a representatividade das bases de dados genéticos utilizadas na interpretação dos exames tornam-se um diferencial decisivo para aumentar a precisão diagnóstica. A Centogene reúne um dos maiores bancos de dados genômicos e clínicos integrados do mundo, com mais de 1 milhão de indivíduos sequenciados, provenientes de mais de 120 países e com uma das maiores diversidades étnicas e genéticas disponíveis para análise. Essa ampla representatividade permite comparar variantes genéticas observadas em pacientes brasileiros com um conjunto muito mais diverso de populações, reduzindo incertezas na interpretação e aumentando a capacidade de identificar variantes raras e novos mecanismos associados às doenças.
“Em genética, não basta gerar o sequenciamento. O verdadeiro valor está na interpretação. Quanto maior e mais diversa é a base de dados utilizada para comparar as variantes encontradas, maior é a capacidade de distinguir alterações benignas daquelas realmente relacionadas à doença. Essa é uma das grandes contribuições da medicina de precisão para reduzir a odisseia diagnóstica dos pacientes com doenças raras”, explica Marcia Riboldi.
Segundo a executiva, esse conhecimento é continuamente enriquecido pela integração entre dados genômicos, informações clínicas e evidências científicas produzidas globalmente. “Cada novo caso analisado amplia nossa compreensão sobre a relação entre genes e doenças. Esse aprendizado contínuo fortalece a interpretação dos exames e aumenta a probabilidade de oferecer respostas mesmo para pacientes que já passaram por uma longa investigação sem diagnóstico conclusivo”, complementa.
Diante da elevada miscigenação da população brasileira, utilizar bases de dados geneticamente diversas é especialmente importante. A comparação com populações de diferentes origens permite uma classificação mais precisa das variantes encontradas, reduzindo o número de resultados inconclusivos e aumentando a confiança do diagnóstico molecular.
Um estudo nacional publicado em 2024 mostrou que, entre os diagnósticos confirmados na população analisada, 30,9% foram classificados como moleculares. Os autores também apontaram a importância de ampliar a caracterização das doenças raras no país para melhorar a compreensão epidemiológica e apoiar o planejamento de políticas e recursos destinados a essa população.
Para Marcia, a evolução da medicina genômica precisa estar acompanhada de uma estrutura capaz de conectar tecnologia, conhecimento científico e prática clínica. “A tecnologia é uma parte importante da solução, mas o resultado depende de todo o processo que vem depois: entender a história do paciente, escolher a estratégia diagnóstica adequada, interpretar os achados e relacioná-los ao quadro clínico. Quanto mais conseguimos integrar essas etapas, maiores são as possibilidades de reduzir o tempo até uma resposta”, afirma.
Além de encerrar uma jornada marcada por incertezas, o diagnóstico pode ter impactos que ultrapassam o paciente. A identificação da causa genética de uma doença pode contribuir para definir o acompanhamento clínico, orientar decisões terapêuticas quando existem opções específicas e oferecer informações relevantes para familiares que possam apresentar risco aumentado de determinada condição hereditária.
“A dificuldade de chegar a uma resposta, portanto, não está relacionada apenas à raridade de cada doença isoladamente. Ela também envolve a complexidade biológica das condições, a necessidade de profissionais especializados e a capacidade de interpretar grandes volumes de informação. Nesse contexto, a integração entre genética, dados clínicos e ferramentas avançadas de diagnóstico aparece como uma das frentes para tornar a investigação de doenças raras mais precisa e reduzir o tempo percorrido pelos pacientes até a identificação de sua condição”, conclui Marcia. (Com informações da Centogene – 25.08.2026)

