*Por Fúlvio Facco
A evolução da tecnologia médica transformou a nossa capacidade de identificar doenças, elevando o diagnóstico de uma simples etapa clínica para um fator econômico decisivo. Se no passado as avaliações dependiam de marcadores genéricos, hoje o uso de ferramentas altamente específicas nos permite investigar a saúde do paciente com extrema precisão. Essa precisão tornou a velocidade de detecção um dos principais pilares para a redução de custos no setor, superando definitivamente a visão de que exames são apenas etapas burocráticas.
O atraso na identificação de uma enfermidade gera um perigoso efeito cascata financeiro e assistencial. Um paciente que poderia ser tratado precocemente de forma ambulatorial acaba perdendo a janela ideal de intervenção, o que limita as opções terapêuticas e frequentemente resulta em hospitalização, sendo esta a etapa mais cara de toda a cadeia de saúde. Além do impacto direto nos cofres públicos e privados, observo que o diagnóstico tardio cobra um alto preço social, refletido na perda de dias de trabalho e na queda abrupta da qualidade de vida do indivíduo e de seus familiares.
Antes de tudo, vale destacar que a lógica da prevenção já é amplamente conhecida. Ainda assim, o Brasil enfrenta gargalos estruturais importantes, como a ausência de diretrizes médicas mais robustas e a falta de integração entre os sistemas de informação em saúde. Essa fragmentação faz com que tanto o Sistema Único de Saúde (SUS) quanto a saúde suplementar arquem repetidamente com os custos do mesmo procedimento. Sem um histórico clínico unificado, pacientes são frequentemente submetidos a exames já realizados, simplesmente porque os profissionais não têm acesso aos laudos anteriores. O resultado é um desperdício expressivo de recursos: estudos em diferentes instituições indicam que até 30% dos exames solicitados não possuem utilidade clínica, seja por repetição desnecessária, seja porque já não são relevantes diante da evolução do quadro do paciente.
Para reverter esse cenário de ineficiência, defendo uma mudança cultural urgente na nossa área. A excessiva autonomia na solicitação de procedimentos deve dar lugar a uma adesão rigorosa a protocolos clínicos padronizados. Apenas com jornadas de pacientes bem mapeadas será possível mensurar a relação de custo-efetividade e identificar exatamente onde os recursos estão sendo drenados. Essa racionalização é fundamental para criar o fôlego financeiro necessário à incorporação de novas tecnologias. Atualmente, o sistema sofre de uma miopia estrutural, evidenciada pela priorização orçamentária focada na avaliação de novas drogas em detrimento de inovações diagnósticas que, se aplicadas corretamente, evitariam o agravamento das doenças.
Em essência, o diagnóstico precisa ser encarado como a infraestrutura central que sustenta todo o ecossistema de saúde. Assim como a fundação de um edifício na construção civil, é uma base que muitas vezes permanece invisível e sem o devido protagonismo, mas cuja negligência compromete toda a estrutura, tornando o sistema financeiramente insustentável. Investir de forma mais inteligente e ágil na fase de detecção não é apenas uma diretriz para salvar vidas, mas uma estratégia essencial para reduzir ineficiências, otimizar recursos e garantir a sustentabilidade da saúde no longo prazo.
*Fúlvio Facco é Diretor LATAM da Binding Site. O executivo também é presidente do Conselho de Administração da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL).*

