“Quem é dono do diagnóstico? Dos resultados ao cuidado integrado” foi tema de debate, com moderação de Daniela Camarinha (YouCare) e as participações de Linaldo Vilar (Dasa); Edgar Rizzatti (Fleury); Cristóvão Mangueira (Albert Einstein); Carlos Aita (DB Diagnósticos); Rafael Jácomo (Grupo Sabin) e Alexandre Flaith (Quest). A Mesa Redonda fez parte da Programação Científica, do evento da 3ª missão brasileira da ADLM 26, no último dia 27 de julho.
Sobre autocoleta, Rafael Jácomo, do Grupo Sabin, comentou que existem algumas barreiras culturais, regulatórias, e de reembolso. “Como que a gente vai conseguir alinhar junto com a fonte pagadora esse processo todo e garantir realmente que o indivíduo que está fazendo aquele exame é o indivíduo que tem direito à cobertura”. Ele destacou que existe uma necessidade tanto dos serviços privados quanto da atenção mediada pelo SUS de conseguir chegar nessas pontas que estão mal atendidas. E a autocoleta tem uma questão estratégica nisso, “quando a gente vai pensar, por exemplo, de autocoleta para HPV, que é algo que já é realidade. A gente amplia a coleta, melhora a estratégia de cobertura na população e faz um rastreamento de quem tem direito. E eu citei o exemplo da autocoleta para HPV, mas tem autocoleta, inclusive, de sangue que é disponível, tem uma questão de logística para ser organizada. Mas, eu acho que nos próximos cinco anos a gente vai ter um cenário bem diferente no Brasil”
Já Linaldo Vilar, da Dasa, acredita nas barreiras, principalmente as culturais, “a gente sabe que, por exemplo, para a saúde da mulher, a gente ainda tem que vencer uma barreira importante. A gente fez algumas iniciativas nesse sentido. A Dasa tem um projeto no Xingu com as populações indígenas, e a gente vê que precisa de muita educação, divulgar bastante a autocoleta para quebrar essas barreiras”.
Interoperabilidade
Daniela Camarinha, moderadora do debate, inquiriu sobre a questão da interoperabilidade e a união entre todas as áreas, buscando um melhor desfecho e uma melhor tomada de decisão para o paciente.
Edgar Rizzatti, do Grupo Fleury, ressaltou que a interoperabilidade é um componente importante. “Acredito que todos nós que estamos aqui temos excelentes exemplos de interoperabilidade no setor de saúde, dentro das nossas organizações. Todos os grandes laboratórios presentes têm interoperabilidade com centenas ou milhares de laboratórios em todo o país. É uma interoperabilidade que permite emitir a etiqueta no laboratório de origem, trazer as amostras para serem processadas de forma centralizada e devolver os resultados de maneira totalmente rastreável e com total segurança para os pacientes”.
Rizzati defendeu que existem esforços nesse sentido, mas reiterou que hoje as limitações são muito menos tecnológicas do que de outras naturezas.
Vilar, da Dasa, destacou que concorda e acrescentou que é necessário garantir a confiabilidade dos dados, “com a LGPD, essa também passa a ser uma barreira adicional para conseguirmos criar essa interoperabilidade.”.
Já o responsável pelo Hospital Albert Einstein, Cristóvão Mangueira, reitera que existe uma hierarquia de dificuldades para que a interoperabilidade ocorra de fato. “Ainda existe alguma barreira tecnológica, embora ela esteja cada vez mais próxima de ser solucionada. Mas as iniciativas de interoperabilidade que eu conheço no Brasil acabaram esbarrando, principalmente, na desconfiança. Quando estamos falando de empresas privadas com outras empresas privadas, existe uma concorrência real de mercado. As iniciativas que acompanhei e que não deram certo fracassaram exatamente por causa dessa quebra de confiança e do receio de que os dados fossem utilizados de forma concorrencial pelo parceiro. Acho que essa é a principal barreira”.
Mangueira frisou que se quisermos avançar nessa direção, é preciso criar um ambiente seguro, em que as empresas possam confiar umas nas outras e trabalhar em conjunto para tornar esses dados interoperáveis.
Já Rafael Jácomo, do Grupo Sabin, lembrou que as empresas, alguns anos atrás, sofreram com um serviço que estava disponível para pacientes e que tinha como objetivo agregar dados de saúde, “para isso, utilizava o usuário e a senha do paciente para entrar nos nossos sistemas e usava um ‘robozinho’ para puxar as informações. Então, acho que esse é o lado ruim da interoperabilidade, que, na verdade, nem é interoperabilidade. Acho que é má-fé no uso dos dados”.
Ele concluiu sua fala sobre as iniciativas muito importantes que estão acontecendo no Brasil. A primeira é uma colaboração da ABRAMED com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), do Ministério da Saúde. A segunda é uma iniciativa do Inova HC, chamada Open Care, que envolve os grandes laboratórios e também a Bradesco Saúde, que está por trás do financiamento inicial dessa iniciativa. Ela está permitindo que todos conversem de uma forma mais madura.
“Quando falamos, por exemplo, de genômica, esse talvez seja o melhor exemplo do quanto de recursos pode ser economizado se essa informação estiver disponível nas diferentes camadas da atenção à saúde.”.
Inteligência Artificial
Outro ponto a ser mencionado pela moderação foi a relação dos laboratórios com a Inteligência Artificial? Qual dessas três etapas é o foco central? E como vocês estão conduzindo essa transformação? O que faz parte da agenda de vocês e o que mais preocupa hoje para que essa transformação aconteça e a IA funcione de forma efetiva? provocou Daniela.
Linaldo Vilar, da Dasa, disse que a empresa usa IA já há algum tempo, principalmente em imagem, desde 2017. “Nosso foco tem sido trabalhar fortemente governança e letramento, treinamento das equipes. Hoje, todos os colaboradores da Dasa têm acesso ao Copiloto. Fizemos uma parceria com a Microsoft e estamos disseminando esse conhecimento, além de criar diversos agentes internos”.
Vilar acredita que a IA é um copiloto. Uma ferramenta de alta performance para apoiar a tomada de decisão, mas não para substituí-la. “Acreditamos que a IA será um suporte muito importante para a operação, para a tomada de decisão e para dar mais agilidade, mas não para substituir a decisão humana. Tudo isso apoiado nos pilares que mencionei: governança, letramento e uma transformação que deve se intensificar nos próximos anos.”
Já Carlos Aita (DB Diagnósticos) defendeu que ainda existe o filtro final, que continua sendo nosso. “Mas a gente percebe que a Inteligência Artificial está evoluindo muito rapidamente. Eu tenho aprendido bastante com ela e vejo que as informações que a IA fornece hoje já estão chegando muito próximas do que nós produzimos. Mesmo assim, acredito que o julgamento final do médico continua sendo fundamental. E acho que isso ainda garante o meu trabalho por um bom tempo.”.
O representante da Quest, Alexandre Flaith, defender que o impacto da IA pode ser visto claramente em três pilares: “o primeiro é o paciente. A IA permite trazer uma análise clínica abrangente daquele paciente especificamente, levando a decisões preventivas ou a tratamentos personalizados. Do ponto de vista do corpo clínico, atua como um copiloto. Nunca para substituir o médico, mas para apoiá-lo, oferecendo a maior quantidade possível de informações. Não apenas um relatório de biomarcadores específicos, mas uma análise completa e abrangente para que o médico possa tomar a melhor decisão. Além disso, facilita a comunicação entre médico e paciente. Quando pensamos no Brasil, um país tão heterogêneo, com diferentes níveis de educação, o linguajar médico presente em muitos laudos é difícil de ser compreendido pelo paciente. A IA permite transformar isso em uma linguagem acessível para qualquer pessoa. E o terceiro pilar são as fontes pagadoras. À medida que a medicina preventiva evolui e conseguimos oferecer tratamentos mais personalizados e maior monitoramento dos pacientes, os custos para essas fontes pagadoras tendem a diminuir ao longo do tempo”.
Mangueira, do Einstein, determinou que a IA é um caminho sem volta, “acredito que trará muito mais soluções do que riscos, desde que seja bem controlada e bem regulada. A IA saiu da bolha das universidades e das startups, ganhou o mundo e agora cabe a nós, enquanto entidades e sociedade organizada, construir mecanismos de regulação. Precisamos garantir que seu uso não fira princípios éticos, não amplie desigualdades nem potencialize erros. Por isso, eu destacaria justamente esse ponto da regulação e da domesticação da inteligência artificial.”.
Jácomo, do Sabin disse que o mercado sempre anda em bandos e sublinhou que o modelo brasileiro ainda gera muito atrito ao paciente. “No ano passado inauguramos, em Brasília, uma unidade voltada especificamente ao atendimento digital, sem guichês tradicionais. Claro que isso ainda esbarra em questões relacionadas às fontes pagadoras, que muitas vezes ainda exigem assinatura em papel e outros processos burocráticos. São mudanças que precisam acontecer gradualmente”.
Rizzatti, do Fleury, destacou a perspectiva laboratorial pré-analítico, analítico e pós-analítico.
“Do ponto de vista analítico, os melhores exemplos atualmente estão na anatomia patológica e nos exames de imagem. Temos aplicações que ajudam a identificar rapidamente situações como embolia pulmonar ou sangramento intracraniano, inclusive quando essas hipóteses nem eram inicialmente consideradas, acelerando diagnósticos críticos. Já no pós-analítico, uma aplicação bastante interessante está no acompanhamento de pacientes com nódulo pulmonar. Muitas vezes o médico pode deixar passar uma informação registrada no laudo, e a IA atua lembrando ou chamando atenção para aquele acompanhamento necessário. Em todas essas situações, a Inteligência Artificial funciona como um alerta. Em algum momento ela levanta uma ‘mãozinha digital’ para chamar a atenção do médico ou do profissional do laboratório de que algo importante está acontecendo”.
Ele também salientou que é necessário incorporar dados gerados pelos wearables e outras informações do cotidiano dos pacientes, “tudo isso permitirá uma hiperpersonalização da assistência, oferecendo jornadas cada vez mais individualizadas e eficientes”.
O papel da indústria
Por fim, Carlos Gouvêa, presidente da CBDL, tomou a moderação e perguntou aos participantes o que eles esperam da indústria?
Pela Dasa, Vilar disse que há uma iniciativa superimportante coordenada pela ABRAMED no processo de interoperabilidade, junto com a Faculdade Cesar e todo o board. “A gente sabe que não é fácil, por tudo o que conversamos aqui, mas acho que esse é um ponto de partida. É uma jornada com a qual acredito que todos concordam. O valor está em como tratamos essa informação, como atendemos melhor o paciente e fazemos essa jornada ser mais fluida. Então, acho que todo mundo vai ter que exercer um certo desapego cultural. Essa combinação entre a ABRAMED como entidade impulsionadora, e as decisões regulatórias e governamentais é o que pode fazer esse tema avançar e resolver esse impasse.”
Carlos Aita, da DB, comentou que a indústria já vem trazendo inovações muito importantes e que sempre surgem novidades que agregam bastante ao trabalho. “Então, o primeiro ponto é continuar investindo em inovação, trazer novas soluções e manter a segurança daquilo que já vem sendo feito. E o segundo é vender mais barato.”, brincou.
Pela Quest, Alexandre Flaith disse que a iniciativa privada, ao longo da história no Brasil, sempre foi muito capaz de tomar iniciativa, investir, unir forças e fazer acontecer.
“Existe interoperabilidade no SUS porque, no lançamento do Sistema Único de Saúde, isso foi definido como prioridade estratégica e houve um grande projeto para que acontecesse. O grande salto que precisamos dar no Brasil será quando conseguirmos unir essas duas coisas: a força da iniciativa privada e a atuação coordenada do poder público. Mas, para isso, existe uma necessidade intrínseca de vontade política. Quando isso acontecer, nós vamos transformar completamente o panorama do diagnóstico no Brasil.”.
Na opinião de Cristóvão Mangueira, do Albert Einstein, além de vender mais barato, a indústria precisa vender produtos melhores. “Não que a indústria não tenha alta qualidade, mas em alguns momentos alguns fabricantes que, na prática, são desenvolvedores de tecnologias, equipamentos, automações, novos testes e biomarcadores, acabam se acomodando em mercados consolidados. Acho que este é um momento para a indústria de IVD repensar seus investimentos em tecnologia e em melhorias para o diagnóstico laboratorial. Falo isso de forma geral, envolvendo empresas da Ásia, Europa e Américas.”.
Já Rafael Jácomo, do Sabin, comentou, “quando falamos da parte ‘da porta para dentro’, ou seja, do processamento dos exames, isso está muito ligado ao core da indústria. Tudo aquilo que esperamos de ganhos com IA aplicada ao processo analítico deveria ser liderado pela própria indústria. No Brasil existem cerca de oito mil laboratórios. Se cada um precisar desenvolver individualmente sua própria base de inteligência artificial para a parte analítica, estaremos desperdiçando enormes esforços de forma descentralizada. Vejo essa como uma grande responsabilidade da indústria, e não apenas da indústria diagnóstica, mas também das empresas de sistemas e tecnologia”.
Ao conclui, Edgar Rizzatti, do Fleury, disse ver três possibilidades: a primeira é que, sem nenhum ufanismo, nós temos um setor de medicina diagnóstica bastante competente no Brasil. Ao mesmo tempo, a indústria tem atuação global; O segundo ponto é o estabelecimento de padrões. “Falamos hoje de interoperabilidade e, para que ela exista, precisamos de padrões: padrões semânticos, tecnológicos e operacionais. Por fim, há uma contribuição que, idealmente, nem deveria ser necessária, mas continua sendo muito importante: a interlocução da indústria com os órgãos regulatórios e governamentais. Tivemos um exemplo bastante claro durante a recente crise de reagentes, quando a CBDL exerceu um protagonismo muito relevante para ajudar todo o setor a enfrentar aquela situação.”.
Carlos Gouvêa, ao finalizar o painel, concluiu com uma fala que prega a atuação conjunta de todos os agentes. “Colocar o Brasil em uma posição de destaque no cenário mundial, atrair pesquisas e desenvolvimento para o país, aproveitar nossa base de talentos, nossa base de dados e a diversidade de pacientes. Acho que existe um enorme potencial nesse sentido. Também precisamos utilizar a própria força do mercado brasileiro para torná-lo ainda mais atrativo para empresas internacionais, mostrando que o Brasil merece estar no radar global. E continuar trabalhando para melhorar a qualidade, aperfeiçoar os sistemas, avançar na padronização e atuar de forma cada vez mais efetiva na questão regulatória. Além disso, devemos continuar levantando bandeiras importantes em torno de programas de políticas públicas como a Política Nacional do Diagnóstico Laboratorial (PNDL). Vamos continuar trabalhando para trazer os holofotes para o Brasil, posicionar o país de maneira cada vez mais relevante no cenário global, ampliar o acesso às novas tecnologias e fortalecer o diagnóstico laboratorial brasileiro.”. (Com informações da CBDL – 30.07.2026)

