Sam Neill: CAR-T manteve o ator livre do câncer por cinco anos; entenda como a terapia avança no Brasil

Após alcançar a remissão de um linfoma não Hodgkin com a terapia celular, o ator voltou a colocar em evidência uma tecnologia que promete revolucionar o tratamento oncológico; caso chama atenção para os avanços e os desafios de ampliar o acesso no país

A notícia da morte do ator neozelandês Sam Neill, que atuou como Alan Grant na franquia Jurassic Park, aos 78 anos, chamou atenção não só pela carreira do astro, mas também pela sua trajetória de saúde. Neill conviveu por cerca de cinco anos com um linfoma não Hodgkin e, meses antes de morrer, havia comemorado publicamente estar “livre do câncer” graças a uma terapia genética que reprogramou seu próprio sistema imunológico para combater a doença: a CAR-T. Sua família confirmou que a morte não teve relação com o câncer, que estava em remissão.

O caso repercutiu mundialmente e trouxe de volta ao centro do debate uma pergunta que especialistas em oncologia vêm respondendo há anos, mas que ainda gera muitas dúvidas: afinal, como funciona essa terapia e o que ela representa para o futuro do tratamento contra o câncer, inclusive no Brasil?

O que é a terapia CAR-T

A CAR-T Cell é uma das apostas mais promissoras da oncologia nas últimas décadas para o tratamento de cânceres do sangue, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Diferentemente da quimioterapia, que ataca as células cancerígenas de forma mais ampla, a CAR-T usa as próprias defesas do paciente, os linfócitos T, geneticamente modificados em laboratório para reconhecer e destruir especificamente as células tumorais.

Para o hematologista Renato Cunha, líder nacional de terapia celular da Oncoclínicas e uma das principais referências no assunto no país, a lógica do tratamento é o que o diferencia das abordagens tradicionais.

“São drogas vivas, chamadas de terapia celular, que aprimoram o sistema de defesa do paciente para que ele promova a cura através da destruição das células do câncer. O CAR-T trabalha de forma personalizada, guiado para tratar aquela célula, aquele câncer, aquela mutação, e não de uma maneira geral, em todo o corpo”, explica.

O processo começa com a coleta de sangue do paciente por meio de um procedimento chamado aférese, semelhante a uma hemodiálise. A partir dessa coleta, os linfócitos T são isolados e enviados a um laboratório especializado, onde recebem, por meio de um vetor viral modificado, as instruções genéticas para produzir um receptor artificial capaz de reconhecer o antígeno específico daquele câncer.

Essas células reprogramadas são então multiplicadas em grande escala e reinfundidas no paciente, que passa a contar com uma verdadeira “tropa de elite” treinada exclusivamente para localizar e eliminar as células tumorais — foi justamente esse tipo de terapia que Sam Neill recebeu quando a quimioterapia deixou de funcionar em seu tratamento.

O cenário no Brasil

Nos Estados Unidos, o primeiro tratamento CAR-T foi aprovado pela FDA em 2017, e desde então mais de 20 mil pacientes já passaram pela terapia. No Brasil, o primeiro caso tratado de forma experimental aconteceu em 2019, e a Anvisa só aprovou as primeiras drogas para uso no país em 2022.

O acesso, no entanto, ainda esbarra em desafios de infraestrutura e produção. É nesse ponto que o país tem dado passos relevantes: iniciativas nacionais, como o estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Hemocentro de Ribeirão Preto e o Instituto Butantan, vêm testando uma versão brasileira da terapia para pacientes com linfoma não Hodgkin, com resultados preliminares que apontam taxa de resposta de 87,5% entre os pacientes já tratados.

Para Renato Cunha, iniciativas como essa podem ser decisivas para o futuro do tratamento no país. “A produção nacional é um divisor de águas. Não se trata apenas de custo, mas também de soberania terapêutica. Um Brasil capaz de fabricar CAR-T localmente pode se tornar um hub regional, beneficiando outros países da América Latina que hoje não têm nenhum acesso a essa tecnologia”, afirma.

Os desafios que ainda existem

Apesar do otimismo, o especialista pondera que ainda há um caminho a percorrer até que a terapia esteja amplamente disponível. A produção em larga escala de células modificadas continua sendo um gargalo, e o alto custo do tratamento, que pode chegar a milhões de reais por paciente, segue restringindo o acesso a um número reduzido de pessoas.

“Falta capacidade de produzir rapidamente grandes quantidades de células. Precisamos de novas tecnologias para o processamento”, pontua.

Para o hematologista, casos como o de Sam Neill ajudam a dar visibilidade a um tratamento que, cada vez mais, se consolida como um novo pilar na oncologia, ao lado da quimioterapia, da radioterapia e da imunoterapia.

“O futuro da oncologia hematológica aponta claramente na direção da terapia celular e gênica. A questão que o Brasil precisa responder, com urgência, é se esse futuro chegará para todos ou apenas para alguns”, conclui Renato Cunha. (Com informações da Oncoclínicas – 16.07.2026)

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