Oncologista explica como funciona o rastreamento, qual é o papel do teste de HPV e por que o diagnóstico precoce pode mudar o tratamento
Nesta terça-feira (29), a ex-jogadora da Seleção Brasileira de vôlei Ana Carolina, conhecida como Carolana, revelou em um vídeo publicado no Instagram que foi diagnosticada com câncer do colo do útero em abril deste ano. Medalhista olímpica, a atleta contou que o tumor foi identificado durante uma consulta de rotina, ainda em estágio inicial. Segundo o relato, ela passou por duas cirurgias, em junho e agosto, e afirmou que está bem após concluir o tratamento.
O relato chama atenção para uma dúvida comum: afinal, existe um exame capaz de detectar o câncer do colo do útero antes que ele provoque sintomas? A resposta passa pelo rastreamento, que tem como objetivo identificar a infecção pelo HPV de alto risco ou alterações que possam evoluir para um tumor antes que a doença se torne invasiva.
“Quando falamos em câncer ginecológico, prevenção e diagnóstico precoce precisam caminhar juntos. Temos doenças que podem ser evitadas ou identificadas antes de se tornarem mais graves, mas isso depende de informação, vacinação, acompanhamento médico e, principalmente, de acesso. O momento em que a paciente chega ao sistema de saúde pode mudar completamente a possibilidade de tratamento e de cura”, afirma Diocesio Andrade, líder nacional dos tumores ginecológicos da Oncoclínicas.
Teste de HPV passa a ser o principal método de rastreamento
Por muitos anos, o exame mais conhecido para prevenção do câncer do colo do útero foi o Papanicolau. O exame citopatológico analisa células coletadas do colo do útero e pode identificar alterações que antecedem o câncer.
Esse cenário está mudando no Brasil. O Ministério da Saúde estabeleceu novas diretrizes para o rastreamento do câncer do colo do útero, que passaram a adotar o teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico como método primário. A estratégia está sendo implantada progressivamente no Sistema Único de Saúde. O rastreamento é indicado para mulheres e outras pessoas com colo do útero, de 25 a 64 anos, que já tenham tido atividade sexual. Com o teste de DNA-HPV negativo, a recomendação é repetir o exame após cinco anos.
“O teste de DNA-HPV permite identificar a presença de tipos de HPV associados ao desenvolvimento do câncer antes que necessariamente exista uma alteração celular detectável. Isso amplia a possibilidade de atuar mais cedo, acompanhando e tratando eventuais lesões precursoras antes que evoluam”, explica Diocésio.
O próprio Ministério da Saúde informa que a meta é que o rastreamento com o teste molecular esteja disponível em toda a rede pública brasileira até dezembro de 2026. Enquanto a implantação ocorre de forma gradual, o Papanicolau continua fazendo parte da estratégia de rastreamento e pode ser utilizado conforme a disponibilidade e o protocolo adotado no serviço de saúde.
HPV positivo não significa câncer
O resultado de um teste de HPV pode causar preocupação, mas é importante entender que ter HPV não é o mesmo que ter câncer. A infecção pelo papilomavírus humano é extremamente comum. O problema está principalmente na persistência de tipos oncogênicos do vírus, que podem provocar alterações progressivas nas células do colo do útero. Segundo o INCA, a infecção persistente pelo HPV está associada a cerca de 99% dos casos de câncer do colo do útero, e os tipos 16 e 18 respondem por aproximadamente 70% dos tumores.
Na maioria das pessoas, a infecção é controlada pelo próprio organismo. O risco está justamente quando determinados tipos de HPV permanecem por tempo prolongado e provocam alterações celulares.
“Um resultado positivo para HPV não significa que a mulher tenha câncer. Significa que existe uma infecção que precisa ser avaliada dentro de um protocolo de acompanhamento. O objetivo do rastreamento é justamente identificar quem precisa de uma investigação mais detalhada antes que uma lesão possa evoluir para um tumor invasivo”, explica o oncologista.
Dependendo do resultado e do tipo de HPV identificado, podem ser indicados exames complementares, como a citologia, a colposcopia e, quando necessário, a biópsia. A colposcopia permite examinar o colo do útero com aumento, enquanto a biópsia analisa um fragmento do tecido para determinar se existem alterações precursoras ou câncer.
Por que o rastreamento é importante mesmo sem sintomas?
Um dos principais problemas do câncer do colo do útero é que as fases iniciais podem não provocar nenhum sintoma. É justamente nesse período que o rastreamento pode identificar alterações.
Quando existem manifestações clínicas, alguns sinais devem ser investigados, como sangramento durante ou depois da relação sexual, sangramento entre as menstruações, sangramento após a menopausa, dor durante a relação sexual e corrimento vaginal com sangue ou odor desagradável.
Por isso, esperar algum sintoma para procurar atendimento não é uma estratégia de prevenção. “Não basta falar para a mulher procurar atendimento. É preciso garantir que, quando ela procure, consiga investigar um sintoma, realizar o exame indicado, receber o resultado e, se houver suspeita ou confirmação de câncer, tenha acesso rápido ao especialista e ao tratamento. O diagnóstico precoce também é uma questão de organização do sistema de saúde”, afirma o oncologista.
A doença pode ser evitada?
Em grande medida, sim. O câncer do colo do útero é um dos tumores em que a prevenção tem um papel particularmente importante porque existe uma relação direta com uma infecção viral que pode ser evitada.
A vacinação contra o HPV é uma das principais ferramentas de prevenção. No Brasil, a vacina está disponível gratuitamente pelo SUS para os públicos definidos pelo Programa Nacional de Imunizações. A vacina reduz o risco de infecção pelos principais tipos de HPV relacionados ao câncer, mas não elimina a necessidade de rastreamento na idade indicada.
Além da vacinação, o uso de preservativos reduz, mas não elimina, o risco de transmissão do HPV, já que o vírus pode estar presente em áreas da pele que não são cobertas pelo método.
“A prevenção passa por três frentes que precisam funcionar juntas: vacinação, rastreamento e acesso ao cuidado. Não adianta termos uma vacina eficaz se a cobertura é insuficiente, nem um exame sofisticado se a mulher não consegue realizá-lo ou não tem acesso ao acompanhamento quando o resultado vem alterado”, ressalta Diocésio.
Brasil deve registrar mais de 19 mil novos casos por ano
Segundo a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 19.310 novos casos de câncer do colo do útero a cada ano no triênio 2026–2028. Entre as mulheres brasileiras, o tumor é o terceiro câncer mais incidente, atrás apenas de mama e cólon e reto, quando não são considerados os tumores de pele não melanoma.
A distribuição também é desigual no país. O INCA mostra taxas de incidência mais elevadas nas regiões Norte e Nordeste do que no Sudeste, refletindo, entre outros fatores, diferenças de acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.
No mundo, praticamente todos os casos de câncer do colo do útero estão relacionados à infecção persistente por tipos oncogênicos do HPV. A Organização Mundial da Saúde estima que tenham ocorrido cerca de 604 mil novos casos em 2024, com aproximadamente 280 mil mortes. As maiores taxas concentram-se em países onde o acesso à vacinação, ao rastreamento e ao tratamento é mais limitado.
O caso de Carolana reforça a importância de incorporar o cuidado preventivo à rotina, mas também mostra que a prevenção não depende de um único procedimento. “Uma das principais mensagens é que a mulher precisa conhecer as estratégias disponíveis e entender que prevenção não é apenas fazer uma consulta quando aparece algum problema. É manter a vacinação em dia, realizar o rastreamento na faixa etária indicada e não ignorar sintomas que fogem do padrão”, conclui Diocesio Andrade. (Com informações da Oncoclínicas – 01.10.2026)

