O HPV não vem isolado e é preciso ampliar o olhar sobre as infecções do trato reprodutivo

*Por Guilherme Ambar

Durante muito tempo, falar em prevenção do câncer do colo do útero significou falar principalmente sobre o HPV. E não poderia ser diferente: a infecção persistente por determinados tipos do papilomavírus humano é a principal causa desse câncer. Mas, à medida que a ciência avança, fica cada vez mais evidente que a saúde do trato reprodutivo feminino não pode ser compreendida a partir de um único agente infeccioso.

Essa mudança de perspectiva é especialmente importante porque as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) frequentemente são assintomáticas ou provocam manifestações semelhantes. Corrimento, dor, coceira, ardência ao urinar e desconforto durante a relação sexual, por exemplo, podem estar relacionados a diferentes microrganismos. A avaliação baseada exclusivamente nos sintomas, portanto, pode não ser suficiente para identificar o que está acontecendo.

Um estudo internacional que está sendo desenvolvido para ampliar o conhecimento sobre o tema traz um dado que merece atenção. Uma análise de aproximadamente 60 mil resultados de testes combinados para HPV e ISTs, coletados ao longo de 42 meses em diferentes contextos, identificou a presença de agentes associados às ISTs em 82% dos casos nos quais o HPV também foi detectado. Entre os resultados positivos para ISTs, o HPV apareceu em 46% das amostras. A detecção simultânea dos dois grupos de agentes ocorreu em 71% dos casos positivos avaliados pelos testes combinados.

Esses números não significam que toda pessoa com HPV tenha uma IST ou que uma infecção provoque necessariamente a outra. Eles apontam, porém, para uma questão relevante: há uma sobreposição entre essas infecções que merece ser mais bem investigada.

A literatura científica já sugere que ISTs e alterações do equilíbrio da microbiota vaginal podem modificar o ambiente inflamatório, imunológico e microbiano do colo do útero. Esses fatores podem influenciar processos relacionados à aquisição, persistência ou eliminação do HPV. Por isso, conhecer apenas a presença do vírus pode ser insuficiente para compreender todo o contexto clínico de determinadas pacientes.

Isso não significa defender a realização indiscriminada de exames. O diagnóstico deve continuar sendo orientado por evidências, indicação clínica e protocolos de rastreamento. A questão é outra: diante de uma infecção identificada, especialmente quando há fatores de risco, sintomas, planejamento de gravidez, histórico de ISTs ou dificuldade de acesso ao acompanhamento médico, pode ser importante ampliar a investigação.

O próprio HPV também exige um olhar cuidadoso. Nem todos os tipos virais apresentam o mesmo risco. Genótipos considerados de alto risco, como HPV-16 e HPV-18, estão particularmente associados à progressão para lesões precursoras e câncer. Saber não apenas se o vírus está presente, mas qual é o seu genótipo, pode contribuir para decisões de acompanhamento mais adequadas. No Brasil, dados apresentados recentemente pelo especialista em Citopatologia e Oncologia Molecular Marco Zonta ajudam a ilustrar essa diferença. Uma pesquisa realizada em diferentes regiões do país analisou 4.173 amostras cervicais de mulheres entre 20 e 69 anos, submetidas simultaneamente à pesquisa molecular de HPV de alto risco e à citologia convencional. O teste molecular identificou a presença do HPV de alto risco em 14,34% das participantes, enquanto a citologia apontou alterações celulares em 5,25%. Os resultados não representam uma comparação de desempenho entre os dois métodos, que têm objetivos distintos: enquanto a pesquisa molecular identifica a presença do vírus, a citologia verifica se já existem alterações nas células associadas à sua ação. Assim, entre as mulheres que apresentaram HPV de alto risco, uma parcela já havia desenvolvido alterações celulares detectáveis pela citologia, enquanto outras ainda estavam em uma etapa anterior, na qual a identificação do vírus pode permitir acompanhamento e intervenção antes que surjam lesões.

O resultado não significa que o Papanicolau perdeu sua importância, mas mostra como diferentes ferramentas podem responder a perguntas distintas e, quando utilizadas de maneira adequada, contribuir para uma estratégia mais eficiente de prevenção. A ampliação do rastreamento, associada à vacinação e ao tratamento das lesões precursoras, é justamente um dos pilares para que o câncer do colo do útero deixe de ser um importante problema de saúde pública.

Essa discussão ganha ainda mais relevância em países como o Brasil, onde o acesso à prevenção e ao diagnóstico ainda é desigual. Levar testes e acompanhamento para populações que permanecem fora dos programas regulares pode representar uma diferença concreta entre descobrir uma infecção ou uma lesão precocemente e chegar ao diagnóstico apenas quando a doença já avançou. O tema é tão relevante que será discutido no 58º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (CBPC/ML), em setembro em Florianópolis/SC, onde farei uma palestra. Mais do que uma discussão sobre tecnologia, trata-se de um debate sobre saúde pública: como identificar melhor as infecções, compreender seus possíveis vínculos e garantir que o diagnóstico precoce chegue a quem mais precisa.

*Guilherme Ambar é biólogo e CEO da Seegene Brazil 

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