No evento promovido pela 3ª Missão Brasileira ADLM 2026, o tema “Como a indústria constrói a próxima geração do diagnóstico” teve representantes de diversas empresas associadas à CBDL como Mindray; Beckman Coulter; BD; Snibe e Seegene.
O encontro começou com uma apresentação da Dra. Yang Liu, chefe da International Clinical Area Academic Department of Mindray.
O moderador do debate foi Carlos Gouvêa, presidente executivo da CBDL, que começou a Mesa Redonda com o aspecto do surgimento das novas tecnologias, mas com o alto índice de 47% da população mundial, que não tem acesso ou tem muito pouco acesso a diagnósticos, em estudo feito pela Lancet encomendado em 2021, e que foi levado à discussão na Assembleia Geral da OMS em maio de 2023.
Victor Mastro Rosa Neto, representante da BD, ressaltou que quando se fala de inovação, fala muito de tecnologias, de IA, de equipamentos. “Mas, do nosso lado, eu gostaria de ressaltar um pouco mais a parte da pré-analítica. Acho que a fase pré-analítica é superimportante e também merece o devido interesse e investimento para que a gente desenvolva novas tecnologias. O pipeline de inovação da BD está muito maior, então isso nos deixa bastante entusiasmados por fazer parte dessa grande etapa de inovação que está ocorrendo no mercado de diagnóstico”.
Já Adriano Rodrigues, pela empresa Snibe, reafirmou que a companhia é focada em inovação, “a Snibe começou com um equipamento totalmente automatizado para quimioluminescência e hoje conta com uma solução completamente automatizada, acompanhando o crescimento dos nossos clientes, entendendo as necessidades de cada um e prestando atenção às suas demandas. Nosso desenvolvimento está focado naquilo que acreditamos ser o futuro do mercado: ouvir o nosso cliente e buscar uma solução para atender suas necessidades no menor tempo possível”.
Daniela Pucci, da Beckman Coulter, afirmou que a Beckman é uma empresa com muitos anos de história, com um legado que começou na hematologia e depois foi se expandindo para várias linhas. Segundo ela, a empresa ficou muito focada em alto volume e alta performance. “De alguns anos para cá, também passou a expandir essa expertise para trazer novos biomarcadores e novas tecnologias. Acho que este é um momento bastante único para a Beckman globalmente e também para o Brasil, de realmente trazer novas tecnologias”.
Ainda de acordo com Daniela, fala-se muito de inovação voltada para produtos, mas a companhia acredita que não vende apenas produtos, equipamentos ou consumíveis para laboratórios e hospitais e sim, vende-se, de maneira geral, serviços.
A chefe da Mindray, Dra. Yang Liu, reiterou que um conceito muito importante é que os avanços tecnológicos não significam necessariamente custos mais altos. “Trabalhei em Pesquisa e Desenvolvimento por cinco anos e sei que o custo é sempre um dos principais fatores na tomada de decisões. Nossa missão na Mindray é desenvolver tecnologias médicas para tornar a assistência médica mais acessível. Por exemplo, estamos desenvolvendo tecnologias mais resistentes a interferências analíticas. Isso significa, em primeiro lugar, maior segurança para os pacientes, pois eles recebem resultados mais precisos”, defendeu Dr. Liu, que ainda completou, “significa que laboratórios e hospitais não precisam gastar mais dinheiro coletando amostras de sangue, usando tubos extras ou repetindo exames. Esses tipos de melhorias acontecem o tempo todo no setor. Portanto, quero enfatizar que estamos fazendo o possível para tornar a assistência médica mais acessível, enquanto continuamos a desenvolver tecnologia”.
O representante da Seegene, Guilherme Ambar confirmou que a empresa tem um programa muito interessante, chamado Open Innovation, que visa levar a tecnologia da Seegene aos pesquisadores. “É uma iniciativa realizada em conjunto com a Springer Nature e a Microsoft, disponibilizando a tecnologia da Seegene para que pesquisadores possam desenvolver seus próprios testes, o que descentraliza esse desenvolvimento e o traz para uma realidade mais regional, isto é, aproximar as soluções da realidade local”, frisou.
Ambar ainda completou dizendo que a Seegene está investindo em automação e, à medida que aumenta a complexidade dos testes, o número de amostras, os diferentes tipos de doenças investigadas e as diferentes metodologias utilizadas, a aplicação de Inteligência Artificial em equipamentos torna-se fundamental para evitar perdas, reduzir o tempo de processamento, diminuir a necessidade de retestes e até prever erros.
“Desenvolvemos também um software para análise de PCR em tempo real, que permite gerar alguns insights clínicos. Mas, mais do que isso, ele atua na formação de bancos de dados de qualidade. Os softwares de análise que desenvolvemos não apenas fornecem esses insights, mas também contribuem para a qualidade da construção dos bancos de dados, integrando todos esses resultados às nossas plataformas”, complementou.
IA e o diagnóstico
Gouvêa prosseguiu com o debate com o tema “Como a IA está transformando os equipamentos de diagnóstico?” e pediu a opinião de todos.
Mastro Rosa Neto, da BD, aproveitou a pergunta para convidar as inovações da BD durante a ADLM. “Estamos apresentando uma grande inovação, da qual temos muito orgulho, voltada para a análise de gasometria. A pré-analítica é exatamente isso: entender todas as dificuldades enfrentadas pelo flebotomista, pelo médico intensivista ou pelo enfermeiro no momento da coleta da amostra. Quais dificuldades eles encontram na coleta? Quais problemas enfrentam com o equipamento que será utilizado para realizar a análise? A BD busca compreender todo esse workflow, todas as dificuldades desses profissionais da saúde, e transformar esse entendimento em inovação incorporada ao produto”, disse ele.
Já o representante da Snibe, Adriano Rodrigues, afirmou que a empresa já oferece soluções integradas em diversas áreas, “um ponto extremamente importante não é apenas integrar nossas próprias soluções, mas também abrir espaço para a conexão com soluções de outras empresas. Esse era um mercado muito fechado. Hoje, ouvindo as necessidades do mercado percebemos que essa abertura torna o ambiente mais competitivo e, consequentemente, melhora o acesso”.
Daniela Pucci, da Beckman Coulter, citou a Mesa Redonda anterior do evento, onde foi comentado que o Brasil é um mercado extremamente fragmentado. “Mas, acredito que, além disso, também temos processos muito fragmentados dentro da indústria, dos laboratórios, dos hospitais, das seguradoras e de toda a cadeia de saúde. Talvez o grande desafio não seja a tecnologia em si. A tecnologia oferece potencial, mas somos nós, como líderes, que promovemos a mudança”, afirmou.
Daniela reiterou que as empresas da área da saúde têm um perfil mais conservador, seja por questões de compliance, pelas regulamentações ou pelas limitações internas de grandes organizações, que muitas vezes dificultam pensar além do modelo tradicional.
“Hoje, sendo bastante sincera, ainda temos um olhar muito individual. A Beckman, por exemplo, é muito eficiente em integrar automação, imunoquímica, hematologia, microbiologia e outras áreas dentro do seu ecossistema. Mas acredito que precisamos de coragem para ampliar essa integração, inclusive entre diferentes empresas. Isso exige abrir mão de um pouco do controle e da confidencialidade que normalmente protegemos, para dar esse pequeno passo em direção a um objetivo maior”, concluiu.
A Mindray, representada pela Dra. Liu, disse haver duas perspectivas, “uma é que, se tudo vier da mesma empresa, integrar as fases pré-analítica, analítica e pós-analítica não é tão difícil quanto se imagina. Durante a fase analítica, se ocorrerem certos problemas, o sistema pode realizar o controle de qualidade automático, e essa informação pode retroalimentar o processo pré-analítico. O mesmo se aplica à tomada de decisão pós-analítica, como mencionei anteriormente. Usando middleware, essa integração não é um grande desafio se tudo vier de um único fabricante. A parte complicada é que é muito difícil encontrar laboratórios que usem instrumentos de apenas um fabricante”, pronunciou.
Na visão dela, tudo exige padronização entre todos os fabricantes, porque, especialmente em imunologia, muitos testes ainda não são padronizados. Para ela, mesmo com o uso de Inteligência Artificial, a integração de dados de diferentes empresas com diferentes intervalos de referência, diferentes valores de corte e diferentes metodologias torna-se extremamente complexa.
Pela Seegene, Guilherme Ambar afirmou acreditar que não só é possível, como esse é um dos maiores avanços que a IA pode trazer para o workflow, especialmente falando da biologia molecular. “O uso de Inteligência Artificial na saúde não é algo novo. Ele vem sendo utilizado desde a década de 1970 com bastante êxito. Mas hoje, com modelos muito mais robustos, somos muito mais capazes de integrar todo esse workflow composto por técnicas diferentes. Isso vale para a padronização de amostras, para a comunicação entre equipamentos que utilizam diferentes linguagens de saída de dados (output), algo que antes era muito difícil de realizar, e também para a integração de todos esses dados visando ao desfecho clínico”, argumentou.
Ambar completou sua fala dizendo que sem o engajamento do operador e do médico que irá receber o laudo, nada disso funciona. Toda essa tecnologia acaba perdendo valor. “Mas, acredito que a IA tende, cada vez mais, a integrar essas diferentes técnicas e, com certeza, contribuirá significativamente para melhorar os desfechos clínicos”. (Com informações da CBDL – 31.07.2026)

