Por Ana Flávia Pires
O desenvolvimento de novos testes irá permitir a substituição da citologia convencional pelo rastreio molecular por um teste molecular mais sensível e capaz de identificar a presença do vírus HPV no organismo, antes mesmo de uma célula se transformar em uma lesão cancerosa. Não é apenas uma atualização tecnológica — é uma mudança de paradigma na saúde da mulher. É a chance real de transformar estatísticas frias em histórias de vida salvas, de garantir que mães, filhas, irmãs e amigas estejam protegidas de uma doença evitável.
A trajetória desse avanço, que resultou na Lei nº 15.174/2025, instituindo a Política Nacional de Enfrentamento da Infecção por HPV, tem seus alicerces em debates da Câmara dos Deputados desde 2021. Naquele ano, audiências públicas destacaram lacunas no rastreamento de câncer de colo do útero e na cobertura vacinal. Em 2023, o PL 5688/23 consolidou essas demandas e, dois anos depois, tornou-se lei.
O Programa Útero é Vida e a PCR como base do rastreamento
O Programa Útero é Vida, pilotado em Pernambuco desde 2023, em parceria com o Ministério da Saúde e a OPAS/OMS, implementa o uso de testes moleculares de HPV por PCR no SUS — alcançando cerca de 370 mil mulheres rastreadas na primeira fase. Desde janeiro de 2024, a iniciativa avança para novos municípios, fortalecendo a linha de cuidado contra o câncer cervical no estado.
Citologia convencional x PCR: sensibilidade e vidas salvas
A citologia convencional (Papanicolau) foi desenvolvida por George Papanicolaou em 1944. Apesar de ter sido um marco na prevenção, hoje apresenta sensibilidade entre 30% e 60%, o que implica que até 4 a 7 em cada 10 lesões precursoras podem passar despercebidas. Já os testes por PCR para HPV têm sensibilidade entre 88% e 97%, e especificidade entre 73% e 93%, detectando infecções de alto risco (CIN2+) mesmo quando a citologia é normal.
Considerando uma estimativa conservadora: se 17.000 mulheres são diagnosticadas por ano no Brasil e a citologia falha em detectar cerca de 40% das lesões precursoras, aproximadamente 6.800 diagnósticos precoces podem estar sendo perdidos anualmente — casos que poderiam ser recuperados com o uso da PCR.
Diretriz global: OMS recomenda PCR desde 2021
A OMS recomenda desde 2021 que o teste de HPV por DNA (PCR) seja o método primário de rastreamento, com periodicidade de 5 a 10 anos. Países como Austrália, Reino Unido e Holanda já adotaram a PCR como padrão e registraram queda significativa nos casos e na mortalidade por câncer cervical.
Comparativo técnico
| Critério | Citologia Convencional (Papanicolau) | Teste Molecular por PCR para HPV |
| Ano de introdução | 1944 | Década de 1990 |
| Sensibilidade (%) | 30–60 | 88–97 |
| Especificidade (%) | 85–95 | 73–93 |
| Intervalo recomendado entre exames | A cada 3 anos | A cada 5 anos (até 10 em alguns países) |
| Método de coleta | Escova e lâmina de vidro | Escova e tubo com meio líquido |
Estratégias para transformar a realidade no Brasil
- Desenvolver chamamento organizado: convidar mulheres de 25 a 64 anos para rastreamento de forma sistemática;
- Reduzir barreiras de acesso ao SUS: garantir coleta em UBS, permitir autoamostragem com swab, ampliar horários e reduzir custos indiretos;
- Estruturar rede com especialistas e gestão qualificada: ampliar o número de profissionais treinados para acompanhamento de casos HPV-positivos;
- Fortalecer campanhas educativas: ampliar a informação sobre HPV, vacinação e PCR;
- Ampliar os parceiros fornecedores: considerando que cerca de 9 milhões de mulheres realizam a citologia no SUS, será necessário ampliar o número de fabricantes e distribuidores de testes moleculares para atender à demanda nacional.
Conclusão
Temos a ciência, a tecnologia, e agora a política pública. O que precisamos é agir com urgência e organização. Se cada diagnóstico recuperado representar uma vida preservada, estamos diante da oportunidade de salvar milhares de mulheres brasileiras, garantindo a elas mais anos de vida, mais abraços, mais histórias para contar.
- Ana Flávia Pires é bióloga e consultora da CBDL

